O Amor – texto budista

Quando se ama com verdadeiro amor, a presença do ser amado é ressentida ao mesmo tempo como um sofrimento e como um prazer. É o duplo combate da sombra e da luz. Uma ameaça acrescenta-se à tua alegria, um sombrio pressentimento de fracasso que te torna infeliz. Considera a alegria e a tristeza como as duas cores de um mesmo ramo. Que uma não se erga contra a outra, e o teu amor será salvo. A experiência amorosa recomeça o mundo, em cada instante. O amor é antes de mais nada um dom de Deus, antes de ser centelha e desejo no coração do homem. Ele junta o que foi separado: a alegria e a dor, a recordação e o esquecimento, o nascimento e a morte. Ele é o grande libertador. O amor não tira nada. Dá. A posse impede a paz da alma. É o reflexo destruidor que gera o sofrimento. O amor que tu não podes atingir, brilha fora de ti, e a sua luz parece-te inacessível. Considera-o como uma estrela longínqua, que não brilha senão para ti. É assim que ele se há-de aproximar. Julgamo-nos indignos do amor, e esse sentimento negativo impede-nos de viver. Considera que no amor não há nem vencedor nem vencido. Somente a vida triunfa. O amor é uma fusão das almas para além do corpo, mesmo se o corpo participa nela ardentemente, apaixonadamente. Ele compromete para além de si próprio, arranca-nos das nossas certezas, das nossas crenças, e coloca-nos numa clareira pacífica que se parece com a eternidade. Sentes amor por alguém? Esse amor não é correspondido? Não abandones, não te desvies. Se os teus pensamentos vêm do coração, sem animosidade, sem violência, novos e belos apesar do teu despeito, do teu desânimo, então o coração do outro será atingido. O amor torna-nos eternamente ricos. Não há amor sem renúncia, sem abertura do coração. Não esperes pelo amor. Vai ao seu encontro. Interroga-te acerca das tuas verdadeiras razões de amar, antes de acusar os outros. Somos muitas vezes, infelizmente, a causa das nossas próprias desgraças. Ilumina as tuas motivações profundas e regressarás trazendo uma nova riqueza. Todo o ser humano é digno do amor. Acolhe-o com simplicidade, como acolherias o céu, o sol, ou o movimento das nuvens. Aprende a leveza no amor, sem ficar assustado com a sua profundidade. A confiança e o respeito mútuos são os pilares do amor. Transcendem as rivalidades e os egoísmos. Para amar, renuncia às tuas protecções, abandona as tuas trincheiras, e entrega-te na nudez do coração. Não podes amar o outro senão amando-te a ti próprio. A partir de hoje decide-te por um género de vida diferente. Não deixes instalar-se o imobilismo e o envelhecimento na tua relação amorosa. Opõe-lhes a espontaneidade, a energia juvenil, emoções novas e sonhos novos. A dúvida e o tédio envenenam muitas vezes o amor. Redobra a tua vigilância. Mantém aceso o amor em permanência como um fogo, com perfumes, cores, música. Cultiva a sedução. Aprende a fazer brilhar os teus actos, os teus pensamentos, os teus desejos. O amor precisa de luz para viver. O amor não é exterior a ti, mesmo se o procuras para além de ti próprio. Ele habita nos mistérios do teu coração. Perdeste simplesmente a chave. O universo fica equilibrado quando as duas mãos se juntam. Olha para cada pessoa que encontras como se ela te devesse trazer um grande segredo. O amor é uma grande força curativa. No amor físico, cada um procura desesperadamente o outro. Não te contentes com uma posse efémera do corpo, mas procura também a fusão do corpo e do espírito, tomando consciência das tuas emoções, das tuas sensações. É assim que os adeptos do tantrismo se unem à Grande Deusa. É assim que o amor é libertador. Se queres amar e ser amado, considera cada dia como excepcional. Há um mistério do amor. Aqueles que se amam experimentam no seu coração a força de atracção dos astros, a queimadura dos sóis, o começo e o fim dos mundos. Eles morrem e renascem num mesmo corpo. O amor é a outra vertente da solidão, o seu lado iluminado. No amor físico, o céu voa espalhando o seu brilho, e tu participas no enlaçamento dos mundos, na sua criação. A união do corpo e do coração abre uma porta para a imensidão. Alguns julgam que o desejo cai depois do acto amoroso, que ele comunica um sentimento de tristeza, e nos afasta do outro. É um erro de visão. Aproveita esse momento incomparável para meditar sobre as tuas sensações, e toma consciência do que é realmente o repouso do corpo. Por trás do acto amoroso, há as mãos calmas e transparentes do mundo.

 

Dugpa Rinpoché tinha uma visão “perfeitamente adaptada ao nosso mundo moderno”. O fulgor das réplicas do mestre, a sua maneira precisa de responder a cada pergunta, como a flecha atinge o alvo, fazendo cair a ilusão e resolvendo o problema, fizeram com que numerosos refugiados tibetanos o considerassem um homem milagroso. Dugpa Rinpoché seguiu S.S. Dalai Lama na sua fuga do Tibete, por altura da invasão chinesa, e, depois de ter estado em Dharamsala, escolheu viver em Nagarkot, Nepal, a três mil metros de altitude, à vista dos seus três cumes lendários: o Annapurna, o Melung Tse e a cordilheira do Everest, coroados de neve. O mestre do Vajrayana não se perdia em longas teorias sobre os benefícios da meditação, sobre a técnica das visualizações. A cada pergunta feita, respondia com uma visão rápida, perfeitamente ajustada ao problema, ao inquérito. A sua resposta revelava sempre o essencial, tocava o coração, e era como se muralhas de escuridão fosse derrubadas. Cada uma das suas respostas engrandecia o espírito, comunicava uma nova maneira de ver, imediata. Dugpa Rinpoché escreveu os seus preceitos a tinta, em páginas brancas que enrolava de seguida, e que evocavam os antigos rolos das orações tradicionais. Aplicava-se com a minúcia dum calígrafo, para traçar os sinais, e meditava no seu texto ao mesmo tempo que escrevia. Dugpa Rinpoché faleceu em Dharamsala em 1989. Selecção: Sherab Chotso (Helena Mello) — Portugal

Retirado do site: http://www.dharmanet.com.br/preceitos/

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